1. Podes explicar o que é a UMAR, para quem ainda não conhece?
Tatiana Mendes: A UMAR – União de Mulheres Alternativa e Resposta surge da necessidade sentida pelas mulheres de lutar pelos seus direitos no contexto político-social que emergia com o 25 de abril de 1974, num Portugal recém-saído da ditadura e com muito por se fazer. Foi constituída formalmente como associação a 12 de setembro de 1976, sendo, até 1989, denominada como União de Mulheres Antifascistas e Revolucionárias (quase parece atual, não?!).
A UMAR Braga foi criada em 2008, por um grupo de jovens estudantes universitárias feministas. Numa região profundamente conservadora mas também conhecida pela sua juventude, este núcleo surge com o intuito de criar espaços de reflexão e ação feminista. Desde então vem desenvolvendo atividades sem precedentes em várias áreas e a muitos níveis, que se têm traduzido no reconhecimento do nosso trabalho.
2. Como se enquadrou a presença da UMAR no projeto REWOMEN em Novi Sad 2022?
T.M: O convite surge pelo contacto do Bojan Milosavljević, coordenador de projetos internacionais da fundação Novi Sad 2022, Capital Europeia da Cultura, à Braga’27 e que, por sua vez, sugeriu que a UMAR Braga, como sua parceira na candidatura a Capital Europeia da Cultura em 2027, integrasse um dos painéis da conferência internacional.
Esta conferência decorre de um projeto também internacional incluído num programa mais vasto – “Heroines”, dedicado à herança histórica, cultural e artística das mulheres, normalmente ocultas e/ou desconhecidas. Isto influiu em muito ter aceitado representar a UMAR/UMAR Braga, para além de poder ver, ouvir mais sobre um movimento do qual fazemos parte mas também sobre a evolução deste movimento no sudeste da Europa.
Eu participei de uma mesa sobre “Mulheres e trabalho na atualidade”, na qual surgiram contribuições que se revelaram muito interessantes, já que se abordaram diferentes formas de trabalho, formal e informal, a falta de oportunidades de trabalho, as dificuldades no acesso ao trabalho, a precariedade (o caso específico dos minijobs na Alemanha) e seus impactos, em particular ao nível social, económico e até na saúde mental.
Nessa mesa, abordei o trabalho reprodutivo e, como introdução, li excertos do texto “As tarefas” das “Novas Cartas Portuguesas” de Maria Isabel Barreno, Maria Velho da Costa e Maria Teresa Horta. A partir do texto vimos como a construção social e cultural do género, ao longo da nossa história, foi atribuindo diferentes papéis e espaços às mulheres e aos homens, com desvantagem para as primeiras, cabendo-lhes ainda hoje e em grande parte as responsabilidades da esfera doméstica e do cuidar.
Concluímos, por isso, que a desconstrução precoce de estereótipos e de papéis de género se revela fundamental para eliminar essa e outras desigualdades, tendo sido apresentado neste sentido o importante trabalho de prevenção primária da violência que a UMAR faz através do projeto ART’THEMIS+ da UMAR.
Para além disso, tive oportunidade de conversar com outras companheiras europeias acerca dos feminismos e das suas experiências e realidades; participar de outras mesas sobre o apoio a mulheres vítimas, a importância dos estudos de género; ver exposições de arte feminista e um documentário sobre a abolição do aborto e da contraceção na Roménia, em 1967, no regime de Ceaucescu (que recomendo, ainda que alertando para o visionamento de factos cruéis).
3. Para ti, qual deve ser o papel da cultura na luta pelos direitos das mulheres?
T.M: É intrínseco! A luta pelos direitos das mulheres envolve necessariamente mudanças sociais, ao nível estrutural e cultural. As desigualdades e as violências de género permeiam a nossa cultura, as nossas ideias, os modos de pensar e comportar. Por outro lado, é a partir da cultura que também podemos refletir sobre eles e transformá-los. A cultura pode ser de facto a “senha” da revolução.
4. De que forma o núcleo UMAR Braga utliza a arte como ferramenta de intervenção?
T.M: A UMAR Braga tem beneficiado da participação ativa de elementos de diferentes áreas de conhecimento, proveniências e interesses. Daí que no seu histórico de atividades, no qual a arte surge como uma importante ferramenta de comunicação e intervenção, conta com a organização de ações de rua performativas, mostras, ciclos de cinema, campanhas, oficinas de expressão artística e inclusive o uso de ferramentas como o Teatro d[e] Oprimid[e]. E as artes são poderosíssimas na comunicação, já que a sua linguagem nos chega por vias sensitivas.
5. Como vês a situação atual dos direitos das mulheres na Europa?
T.M: De modo apreensivo, sou sincera! Sabendo de antemão que, apesar das conquistas alcançadas, ainda há muito por fazer enquanto a desigualdade e a violência de género existirem. Sobretudo: não podemos dar nada como garantido. A pandemia foi demonstrativa disso mesmo, a diferentes níveis e em todo o mundo!
Vemos alguns retrocessos no que se refere aos direitos sexuais e reprodutivos na Europa e nos Estados Unidos, alguns países europeus a quererem voltar atrás no compromisso que fizeram com a Convenção de Istambul e portanto no combate à violência de género, um conservadorismo e uma moral que se imiscui até no próprio movimento. Paralelamente, vemos o crescimento de uma extrema-direita bem perigosa para as mulheres e outros grupos sociais!
6. Caso Braga seja a cidade escolhida para ser Capital Europeia da Cultura em 2027, que impacto gostavas que o título tivesse?
T.M: Sobretudo pela possibilidade e pelo processo… Pela valorização do que temos, pelo usufruto no presente e pelo futuro da cultura em Braga.
Fotografia de Vladimir Mucibabic